27 de abril de 2008

um clipe de nexo


são poucos os clipes tão impressionantes quanto este, acho que a imagem da música e da água subindo casam demais, principalmente porque um olho do cara é maior que o outro e as orelhas parecem orelhas de idiota. eu adorei.

25 de abril de 2008

galinhas de cabeça

quando algo estranho acontece, temos aquele lampejo de (in)consciência em que nossa medula espinhal (desde o começo deste ano eu decidi que 'coluna' é um nome muito besta, agora eu falo 'espinha') toma o controle de tudo, que depois nos perguntam de onde veio, porque nunca viram olho parecido, vulgo presença de espírito. certas coisas acontecem rápido demais, outras muito devagar. de qualquer forma eu me demoro, sempre, porque sou a pressa dos dias normais, já que a pressa de verdade agora não pode mais ser alcançada, não é para nós. ainda assim me surpreende a realidade quando se fotografa da imaginação e tudo o que se vê é sua cara de paspalhão no espelho, com o cabelo que jurou que ia arrumar, que nem quando, no banho, pensamos que não podemos, de jeito nenhum, nos esquecer de pegar o sabonete, pegar o sabonete, pegar o sabonete, porque senão amanhã não tomamos banho no sesc, pegar o sabonete, olha só a água empoçando no box, caramba, pegar o sabonete, eu mato o pedreiro que decidiu que era melhor sem o caimento 'não faz caimento não dona, que entope o ralo', e como poderíamos nós esquecer do caimento quando projetamos um banheiro, é o fundamental, porque, como diz o delija, sem caimento a água empoça e não evapora, o box fica úmido sem o sol e a abertura para o logradouro público e vira um viveiro de bichinhos funguentos, aqueles que combatemos com a inextimável ajuda do agente pato-purific, e do cloro que impregna o ar e corrói a lajezinha protendida que nós arquitetinhos especificamos, enchendo o pé dos velhos de rachaduras por causa de nossa ideologia peçonhenta e cancerígena. nosso semestre passado foi tenso, o delija pegou pesado, mas eu não trocaria por nada. acho que hoje vou ver um filme quando sair do banho porque estou cansado e minhas costas doem, será que tem comida, porque agora preciso me entupir de comida. de qualquer forma, o sabonete já se foi, e do pequeno despertar voltamos a ver galinhas acocoradas em nossa cabeça. porque o lucca me disse quando eu era pequeno que aquelas sementinhas de maria-sem-vergonha 'onde cai, nasce', e jogou uma delas na minha cabeça, dizendo que tinha brotado ali uma flor, mas só eu não podia ver. achando muita graça, perguntava constantemente para a minha mãe por quantas andava minha flor de cucuruto. ela deve mesmo estar lá e deve ser por isso que sempre me senti meio ridículo.

21 de abril de 2008

com um tiro na bacia

esta noite, dormindo emborcado como um gordo babão, sonhei como sonham os desavisados, e do sonho sem pudores matei uma colega com um tiro na bacia. acordei realmente chocado, não de pronto, porque os desenrolares duraram toda a noite, ainda que tenha me levantado para ir ao banheiro mais de uma vez, retornando ao sonhar tão logo me deitasse, como se, sorrindo no travesseiro, cinicamente me esperasse. e até agora tento entender o significado de ato tão despropositado. é certo que no contexto ela merecesse, de certa forma, porém, mas nem a tenho como amiga desperto, tampouco gostaria de matá-la. de qualquer forma, sempre estive indiferente, paisagem, chamamos. mas fiquei estarrecido com a clareza de quem tão friamente meteu-lhe um tiro na bacia. precisamente na bacia. a atmosfera envolvia o cinza de meus desesperos ginasiais, dos doze anos indesejados e sofridamente crescidos (crescer é o que todos meus colegas pareciam querer, malandros, enquanto com toda a fúria de meu medo tentava me agarrar aos meus resquícios de infância), tentando acompanhar o ritmo que não queria. mas no sonho era eu já, o eu de hoje, sentindo o frio na barriga de ontem, aquele que antecedia o choro da ansiedade borbulhante das segundas-feiras que consumiam minha sanidade. matei e não corri, segui como se nada acontecesse, em meio a todos (uma sala cheia) que me olhavam, quer dizer, tinha em mim o acontecido, mas como em sonhos nos vemos de cima, as vezes eu parecia ignorar, pois não pensava lá como penso eu; nos sonhos somos em separado, partes diferentes que entendemos como nós, no caso eu. (uau, acabo agora de conectar aqueles pensamentos construídos em paredes diferentes, se não é o pássaro júlio, meu eu vermelho). de qualquer forma, eu até saí no jornal, manchete e tudo mais. a casa do meu pai era diferente.

18 de abril de 2008

o pássaro júlio

neste quinto quadro queria uma imagem que fosse forte o bastante para que a penas a frase
'deixei que ele entrasse' se bastasse; 'ou saísse'.

o comedor de minhocas

neste terceiro quadro da estória, tinha escrito uma introdução mais ou menos assim: 'enquanto a mijada se fazia ruidosa, fui tomado pela paz de quem quer o momento cada vez mais longo, porque assim ele deixa de ser momento e pisamos naquele limiar dos encontros em que tanto faz estar desperto ou não, pois não estamos em lugar algum. mas da mesma forma em que o pré-coisa deixa de ser pré para se tornar coisa, a tensão superficial se rompe tão logo decidimos tocá-la pois não é feita de decisão, e do rebento minha visão se interrompe de onde estava deixando apenas o farfalhar das penas, e é por isso que acordamos com os olhos cheio das poeiras dos espanadores da manhã. dizem que se olharmos rapidamente para a janela, pode ser que tenhamos a sorte de ver o pássaro de onde saímos, da mesma forma como, na paúba de meus oito anos jurei ter visto o raio verde dos pôr-dos-sóis, aquele que é tão raro de se ver que só se vê uma vez na vida, e na minha sorte o vi usando os pinicantes chinelos do tom e jerry, os mesmos que perdi na outra mureta do dia do vendaval, e por isso mesmo não pude esquecer. minha mãe também viu e hoje devo perguntar-lhe se ainda se lembra do raio verde que o sol faz quando se põe e temos oito anos'. isso vem de algum tempo já, esta sensação de se ver de cima, como se um serzinho estivesse pousado na minha cabeça, com toda a naturalidade de alguém que por algum motivo não está dentro da caixa habitual pois a vê de cima, assim como a viu várias vezes sabendo que é impossível tê-la visto. ainda assim, foi ele quem se esvoaçou pequenino, me fugindo sorrateiro depois de comer todas as minhocas da minha cabeça.

15 de abril de 2008

a máquina sobre o robe

do canto do porão tento dormir. meu pai chegou tarde e disse que tinha posto a cama aqui embaixo. eu já a tinha notado, mas até então não me passara pela cabeça pensar se gostei ou não, tinha notado, e ainda não era hora de dormir. hoje penso em dormir mas vejo minha mãe saindo do quarto de roupão, com o cabelo solto feito agora usual, na surpresa das imagens que se alteram ao longo dos anos. o hábito é um mal peçonhento. mas da surpresa de ver minha mãe com o cabelo solto logo migro para o fato que me chamou a atenção, a máquina fotográfica pendurada no pescoço e o sorriso de quem diz 'é duro deitar pra dormir e ficar tendo idéias'.

13 de abril de 2008

no varal do banheiro, o monstro cerebral

no segundo quadro da minha estória de banheiros, pensei naquele momento que se segue ao isolamento, quando nos damos conta da ausência das presenças, a estrañable transparencia que fica no que não ficou. sem perceber a espontaneidade da inconsciência, automatizada na reação à sozinhez, a cabeça simplesmente pula o gancho da consciência e desliza ao encontro de pequenas distrações do azulejo que possui uma marquinha olho-de-peixe na ponta do esmalte e do puxador olhado de baixo pra cima na forma de um cogumelo inoxidável, sem graça na versão inox, mas tão surpreendente quanto possível, inocente no reconhecimento do que se encontra à nossa volta, nos olhos menos preocupados, desfocados de tanta certeza, quase infantis, deixando surpreender-se nas formas inusitadas das cercanias. o formato peculiar na cuba por baixo da pia ouviu os barulhos do além-mundo de nossas entranhas e cuspiu um borbulho de baba branca. o pequeno monstro de dentro de nós sente-se muito à vontade ao roubar nossos olhos e nos fazer ver nos objetos imediatos os devaneios tresloucados, incoerentes nas pessoas esclarecidas que temos por nós. nossas pernas depositárias se tornam pedaços amarelados e disformes de carne peluda e doentia, amarrados à nossa própria roupa limpa, amarrotada entre a querida privada dos nojos hipócritas das púdicas discrições e o azulejo dos costumes gordurentos, todos unidos pela povoada argamassa da sociedade de culpas esterilizadas à base de pato-purific, a democracia das casas de família. encostamos a roupa sem dó nos exatos lugares dos quais tentamos histericamente mantê-las afastadas em nome de produzir as mornas certezas que negaremos por toda a vida. o momento perfeito para se notar que, da janela impossível, distante metros e metros da rua ensolarada, destaca-se o penetrante e certeiro raio de sol, acudindo as polianas de dentro de nós, cegando por um instante os pensamentos de formas tenebrosas, rasgando o fio do pensamento e costurando-o nalguma outra paragem de nossos varais cerebrais.

9 de abril de 2008

a gente começa a acontecer no banheiro

o banheiro é um lugar esquisito, mas talvez o conheçamos melhor que qualquer outro lugar da casa. o novo banheiro me permanece um mistério, mantém-se no limiar da normalidade mas ainda assim resiste a entregar-se por completo, como que desajustado em seu próprio reconhecimento. neste banheiro em especial, é comum me dar por desperto enquanto me surpreendo mijando sem ter vontade, e logo em seguida me cai o prazer da mijada que verte barulhenta, borbulhando a água da espera e levantando o cheiro açucarado que sucede o estalo, subitamente capotando minha consciência fugida de anteontem. dos escombros minhas pernas doem e minha vista não foca, minha boca está virgem de sono e meus calcanhares estalam conforme meu corpo se empilha de volta ao vertical. no banheiro os palpites começam a chegar, a trilha sonora já estava tocando, e, quando vejo, da minha curta noção de mim mesmo restou apenas a pressa, os compromissos, as presenças. nunca mais estarei sozinho em mim mesmo, não até que me esqueça de como foi bom ser pego desprevenido.

psicotismo de plantão

hoje eu fiquei realmente impressionado com a capacidade que temos para atacar e descontar nossa raiva nas situações mais bestas possíveis. como todo dia, ia hoje de casa para o trabalho, na barra funda. passando pela turiassú, ouvi aquele anunciado barulho de motor acelerando atrás de mim, com um desgraçadosinho de plantão ficando pistolinha sem motivo. nada melhor é nestas situações onde enfrentamos o animal interior dos outros, que ficar calmo e se fazer de desentendido, ou seja, fiz como se não fosse comigo, na tola esperança que costumo ter de me ver na chance de um embate, jogando na cara do infeliz que resolver cruzar meu caminho tudo o que penso quanto à nossa condição, da forma mais prolixa e peçonhenta possível. acho que o arrependimento é um sentimento poderoso. minha raiva me surpreende nestes casos, como que uma embolia da cabeça que me faz imaginar diversas situações de destruição em massa, acidentes catastróficos ou a famigerada fúria bárbara dos sem-controle, pronta a me revolver e terminar num cangazunga-é-zumbi pra todo lado. porque eu vi um zumbi sábado passado, mas a estória não vem ao caso agora. de qualquer forma, a buzinada me fez subir o sangue pelas orelhas, e do meu costumeiro marasmo procurei o desgraçado nas janelinhas certeiras do retrovisor. logicamente o encontrei olhando para mim, ainda que notando uma certa titubeada. não tive dúvidas, olho com olho e mandei-o à puta-que-te-pariu, levantando a mão e xingando pra dentro. o carro então reduziu pois o farol fechara e nos emparelhamos. 'não falei com você não, viu?!' ouvi surpreso, e de pronto respondi; 'então o senhor me desculpe porque de buzinadas e olho feio já estamos de saco cheio'. neste momento a estória toma o sentido inesperado, e nós dois damos uma boa risada, porque pedir desculpas está fora de moda.

7 de abril de 2008

'golpeie os brancos com a cunha vermelha'

voltando à espontaneidade de que tanto falei nas publicações anteriores, este me foi um exemplo claro de como minha cabeça funciona, ou não. primeira aula do ano de uma matéria igualmente chechelenta qualquer, tédio total e absoluto somado ao sentimento de decepção de se ter a certeza assassina de que este semestre seria tão bossal quanto todos os outros. a idéia da televisão que passa uma bunda posta na frente de outra pessoa sem nenhuma relação com o acontecimento tive enquanto ia de bicicleta para o escritório, não me pergunte o porquê. e confesso que minha mão me surpreendeu ao representar as pessoas de uma forma absolutamente diferente de tudo que eu já tentei ou pensei em desenhar. segundo o marcinho, foi uma mistura da piada do quino com o desenho do folon. gostei tanto que fiz uma camiseta, mas errei ao escolher o azul que escondeu todo o desenho que tão cuidadosamente fiz no meu caderninho preto. a idéia do título tive agora ao escrever, fazendo referência à obra 'golpeie os brancos com a cunha vermelha' de lissitsk, 1920

ushuaia

curiosa foi nossa passagem pela ushuaia de perfil lânguido e inocente nascer do sol, com ventos de duzentos kilómetros por hora que nos deixariam o chão torto. seu cais de madeira não aguentaria a sede de tantos turistas babões.

6 de abril de 2008

o papel de couro-de-girafas-da-índia-do-norte

um dos primeiros resultados posteriores ao cosmonauta dos dias de chuva que eu senti ter gostado pela surpresa que me causou foi este desenho que fiz despretenciosamente numa aula aleatória uns 12 anos depois, já na faculdade, com um lápis e uma caneta pilot descabelada que emprestei de algum colega de classe. meu caderninho retrô pautado da coca-cola recebeu então este encharco de tinta dúzias de vezes maior do que era recomendado para não massacrar suas folhas de papel semitransparente, mas acho que o simples e determinante fato dele não esperar este afogamento em tinta preta que me permitiu fazê-lo sem medo. pode ser estranho dizer isso mas eu tenho medo de certas coisas como o papel que parece ser mais especial que qualquer coisa que você possa fazer com ele mesmo que sua vida dependa disso. desde pequeno sofro o logro de ter uma mãe e um pai arquitetos, conhecedores dos mais variados e surpreendentes tipos de papel, prontos a ceder suas maravilhas aos seus filhos desenhadores. por que não faz este seu superdesenho numa folha maior? perguntava minha mãe, oferencendo-me um colossal papel de couro-de-girafas-da-índia-do-norte ou qualquer coisa do tipo, que era maior do que eu, maior que minha espontaneidade, muito além de uma coisa que não se pode controlar que é a criatividade e o fato de não se sentir a vontade com um troço daquele tamanho. acho que estas linhas azuis atravessando as páginas destes tilibras meia-boca têm uma dimensão inesperada ao fazer romper esta cara de aguardo que têm as folhas de papel especiais, tirando qualquer dignidade a não ser a de ter tanta dignidade quanto os outros e talvez por isso mesmo conseguirem receber muito mais do que se espera. as folhas grossas não deixam que eu as atravesse, não se curvam com a tinta, não se podem ser arrancadas pois sofrem mais fundo, pois sofro mais fundo quando tenho uma pela frente. tendo a crer que as distorções nas minhas perspectivas surgiram da minha exigência e perfeccionismo ilógicos, quase doentis, do medo de não desenhar à altura do couro-das-girafas-da-índia-do-norte, ou simplesmente à minha altura. do que eu esperava ser a minha altura.

5 de abril de 2008

o cosmonauta dos dias de chuva

este desenho eu fiz em 1994, na paúba, daquelas tardes chuvosas de uma semana inteira de aguaceiro, depois de chover tanto que os caracóis nos fizessem acreditar que pudessem mesmo se arrastar pelo ar e nos surpreender nos lugares mais ingratos pensando que não os notaríamos, com aquele jeito de bichinho ranhento sem se desgrudar de seu rastro de baba venenosa. à minha mãe não lhes cabia tal destreza, a não ser que uma onda os tivesse trazido, dizia eu, mas nos preocupava mais nossas toalhas de banho que mais molhavam que secavam pois pareciam ter ficado estiradas no varal para conter o avanço do mar. o piso amarelo parecia um espelho lotado de grãozinhos de areia daqueles sujos e escuros, mas que na verdade parecia apenas se preocupar em derrubar as pessoas que, entediadas, puxavam seus reflexos com um rodo de plástico. o lugar mais disputado da casa era a rede perto do cogumelo que aparecera depois dos dois primeiros dias de chuva, quando já ninguém acreditava ser possível ainda haver mais água sem que o mar não se diluísse e a praia não sumisse porque toda a areia escorreria para o mar. mas da rede podia se acompanhar o endoidecido cogumelo crescendo a olhos vistos, minúsculo, desde o inexplicável brotamento, passando pelo alargamento de uma base cheia de bolinhas peçonhentas, dizia minha mãe, que parecia adorar este deságue de criaturas , culminando no espichamento de um véu do cucuruto esbranquiçado que parecia uma rede de pesca armada pela corrente marítima que varria pela nossa varanda, molhando os pés e brotando pelas madeiras até chegar aos estofados e borrifando nossa rede que já fedia muito mais que muco de caracol. foi neste contexto que peguei a folha sulfite curvada de água, depois de ceder ao fato de que o tédio poderia ser desfeito se nos atrevêssemos a buscar algo que fazer. era nos dias de chuva que minha mãe enlouquecia, mas que também conseguíamos inventar uma série de brincadeiras; santo lego, devia ela pensar. a folha parecia impermeável ao lápis molhado, e se rasgava se tentássemos pintar algum desenho. ainda na primeira série, com toda a maturidade dos meus absurdos oito anos, decidi que não mais pintaria um desenho, gostava deles assim, preto no branco, cinza, na verdade. mania esta que ainda não passou por inteiro pois o mono ou dicromatismo sempre me fascinaram. por este desenho tenho um carinho especial, talvez por lembrar que tínhamos que por o papel sobre uma revista para que o lápis não o trespassasse sempre que encontrasse a junção das tábuas da mesa. sempre me surpreendeu sua composição, sua seriedade, coisa que percebi também nos meus oito anos, mas que para mim só serviram para infernizar minhas tentativas subsequentes de repetir tal sucesso. coitada da minha mãe.