27 de julho de 2008

exibição em contexto

esta foi daquelas coisas que se começa e só justamente por ter começado é que se termina. gostei do primeiro e segundo quadros, o terceiro, e portanto a conclusão da estória, não gostei, me pareceu meio bobo, embora por isso mesmo me pareça válido publicar. a idéia era passar um ponto de vista delicado em relação a uma destas situações teoricamente normais.

a consciência de gil



não acho que sejam todos os que têm uma consciência vermelha e espirituosa empoleirada qual papagaio. se é bom ou ruim, não faço a menor idéia, mas acho que deve ser bem legal poder conversar ao invés de só pensar.

23 de julho de 2008

movimentos


meu amigo cacá já dizia, movimentos pélvicos, não existe outra razão para pagarem academia.

21 de julho de 2008

salto

é que nem quando se bebe da muringa,
porque nem sempre lembramos que a
água vem sempre com um gostinho de barro.

6 de julho de 2008

um dia na terra

era velha, a princípio não tinha nada demais, às vezes deixo minha mente preconceituosa voar na frente para eu ver até onde vai e então decidir se preciso ou não reprimí-la, era velha e muito gorda, usava uma calça horrenda daquelas oncinhas fake muito zoadas que não sabem se são onças ou zebras num tom meio bege daquelas capotas de vinil de carros muito antigos em baixo relevo. aposto que tinha a mesma textura grudenta de borracha velha, aquelas calças que são pouco elásticas e por isso mesmo estão forçadas ao extremo em fazer caber um círculo obtuso e monstruoso dentro de um pobre e coitado quadrado indefeso, bem, certo não pode dar. mas entrou na minha frente esta velha repugnante, aparentemente apenas repugnante, e bem na minha justa frente da fila do prato rápido do sesc pompéia, minhas experiências de comer olhando para os lados de quintas e sextas-feiras antes do montanha. ela não ia entrar, mas eu pensei que horror seria se ela entrasse e ela se desviou de seu caminho desterrado para cumprir esta função que tão descaradamente desejei que ela não ocupasse. e lá ela entrou, depois de ter sido chamado de sérgio e xavecado por um oreste desprezível, eu entrava na fila atrás de um balão murcho e pesçonhento, apenas meio cheio do budum de não se tomar banho há vários meses, somado às dobras rançosas de uma manteiga que já saiu da validade e foi deixada ao sol e à sombra por diversas vezes, assim para recriar o leite sulfuroso das poças de chorume que vazam daqueles sacões pestilentos das baladas mais badaladas, do vômito das menininhas anoréxicas que vomitam seus próprios estômagos, era a velha do lodo. porque nas caixas de passagem das fossas sépticas existe um lodo que se acumula no meio dos seixos do filtro, um lodo que é merda velha, e que se acumulava nos poros de um cu peludo que subia até as metades das múltiplas costas que lhe escorriam do pescoço. a velha era o cóccix em pessoa. era o sebo, era a mulher que paria aranhas. a fila ficou com um furo, um buraco que contrariava sua própria lógica, pois entre eu e a velha tive que criar um abismo imune ao cheiro e à ânsia, à aversão mais primária que podemos ter: aparência e cheiro. e esperavam que eu almoçasse depois disso! a velha tinha barba, pêlos mais grossos que os meus saindo-lhe pelas orelhas, perfurando-as como piercings primatas, trazendo para fora os flocos de cêra tal qual pólen esperando a fertilização de tão habitada flora. na fila as pessoas estranhavam o buraco, me faziam caretas e eu tratava de me esconder por trás de meus recém comprados óculos escuros, ainda estou me acostumando a usar estes ai, tentando fazer com que o filtro marrom das lentes filtrasse também o odor de cu de babuíno que tinha esta velha de bunda azul. cheguei ao caixa, súbita felicidade, a velha seguiu adiante furando a fila com sua barriga dobrada para dentro da calça, das dobras fazendo um bolso, para quando estiver pelad poder enfiar a mão nos bolsos, semeando ainda mais repulsa enquanto eu me atinha a uma inexplicável calma em não achar meu cartão na hora de pagar, ao ver diversas pessoas servindo de muralha ao meu mais inescrutável mal. porque tem dias em que os demônios saem do inferno para dar uma voltinha e se aproximarem mais de seus pecadores, e com dois destes cruzei num só dia, pois desde sempre uma coisa depende da outra.

do pútrido

estavamos eu e minha bicicleta, o maior atrativo de epopéias dos meus périplos asiáticos de ultimamente, subindo uma piramba lá perto de casa, eu vinha da fau com aquele barulhinho tica-tac-rrrrrrrr de quando seu câmbio está na verdade é bem fodido, 'isso ai não tem mais jeito, bixô', disse o honorável luciano, cara que menos cobra pelo melhor serviço que conheço quando de manhã passei lá na casa-oficina dele para ver que diabos tinha acontecido com o 'motorzinho' destas bicicletas de hoje em dia. 'isso ai já era, quem sabe eu possa encontrar um novo para você'. 'por favor', disse com aquela sensação dos domingos à noite, que são na verdade segundas-feiras de sol fantasiadas de depressão e bolinhas ingeríveis de desespero. ia ficar na mão, certeza. 'não, olha, pode andar com isso ai deste jeito que pior não fica', 'certeza?', 'certeza, sabe como é, não posso garantir, pode estourar daqui a cinco metros ou você pode voltar aqui daqui a um ano com o treco ainda rodando'. 'ah', eu disse, então beleza, vou seguir barulhando por ai. quinta-feira foi um dia de andar devagar, portanto, curioso, porque desascostumamos a andar devagar, pelo menos eu, e curioso como devagar estamos mais suscetíveis aos outros... bem, lá ia eu devagarando na minha piramba, barulho, barulho, barulho, todos me passando, paciência, se eles soubessem que só estou devagar porque andei rápido demais ultimamente, mas que diferença faz, penso em seguida, estou devagar e pronto, subindo e subindo. de repente um carro me acompanha no meu vagar, tem um senhor dentro, parece me reconhecer, é o oreste, pensei, nosso professor da pena, que droga, é um cara que é ruim, sinto pena, e pena é ruim porque vem de uma coisa de se reconhecer no fracasso alheio. bem, prefiro pensar que ele apenas tinha me reconhecido, reduziu a marcha e me alcançou, baixou o vidro, não era ele. 'por acaso você que é o sérgio?' acho que minha cara de espanto respondeu à pergunta dele. 'putz, é muito parecido com ele'. fiz cara de quem não está muito interessado, disse que não era mesmo este tal de sérgio, ele acelerou o carro e pensei que era só mais um daqueles encontros aleatórios de gente que não se reconhece direito. que azar, o carro reduziu de novo e eu o alcancei. previ no sorriso do infeliz o pior, sabemos das coisas um pouco antes delas acontecerem, sempre foi assim comigo, sempre segundos depois do prazo para uma reação, sabemos, apenas, mas não adianta mais. do vidro abaixado vejo o falso-0reste dizer: 'você é muito gato, cara'. pronto, explosão, merda no ventilador, por que diabos eu mereceria ouvir uma merda destas de um merda destes. o restante do meu caminho lerdo não existiu por causa do incômodo gerado por tal importúnio. não é coisa que se diga, senti-me como uma garotinha de sete anos andando pela rua quando gordos oferecem-lhe doces repugnantes achando que existe alguma coisa de atraente em ser um velho punheteiro. cada uma que temos que ouvir, sei que preciso consertar minha bicicleta o mais rápido possível, esta coisa de ir mais devagar só fode!